Uso de fungicidas na agricultura e resistência a antifúngicos na clínica médica

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Uso de fungicidas na agricultura e resistência a antifúngicos na clínica médica

Os compostos azólicos são substâncias químicas usadas na prática médica para tratamento de infecções fúngicas e, também, utilizadas como fungicidas na agricultura.

Na década de 90, a resistência adquirida aos fármacos azólicos (fluconazol, itraconazol, voriconazol, etc.) era incomum em leveduras. Desde então, é crescente o número de citações sobre ocorrência de cepas resistentes a um, ou mais, desses medicamentos.

As razões para a emergência desse fenômeno com grande implicação clínica são apenas, parcialmente, conhecidas. Dentre as hipóteses mais plausíveis estão aquelas relacionadas ao uso frequente de fluconazol em esquemas profiláticos, preemptivos ou terapêuticos.

Fungicidas na Agricultura

De modo similar, o uso amplo de fungicidas agrícolas poderia exercer pressão seletiva em isolados fúngicos presentes no meio ambiente exposto a esses compostos.

Em 2008, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e assumiu o posto de maior mercado mundial de agrotóxicos. Em 2010, o consumo de agrotóxicos no Brasil teve acréscimo no ano de 190% e os fungicidas corresponderam a 14% nesse mercado. De acordo com a FAO (2008), o consumo de fungicidas atingiu uma área potencial de aproximadamente 800 mil hectares.

Os números apontam o uso amplo de ingredientes ativos como fungicidas em áreas de plantação de hortaliças no Brasil, podendo ser 8 a 16 vezes maior nessa produção do que o utilizado na cultura da soja. Isso indica que, cerca de 20% da comercialização de fungicidas no Brasil destinam-se ao uso em plantações de hortaliças consumidas pela população.

Uso de agrotóxicos

O aumento do uso de agrotóxicos na agricultura causa contaminação residual do solo com esses produtos. Quando os agrotóxicos são aplicados, existe a possibilidade dessas substâncias químicas exercerem alguns efeitos em micro-organismos não necessariamente aqueles para os quais foi destinada a sua aplicação, inclusive aqueles da microbiota de solo.

A exposição ambiental a componentes azólicos abre caminho para a seleção e multiplicação de fungos resistentes a esses compostos. Assim, isolados resistentes podem ser inalados ou ingeridos ou, ainda, introduzidos por traumatismos em indivíduos que trabalham em plantações ou vivem próximo a essas áreas.

Desse modo, poderiam ser justificadas muitas infecções causadas por cepas resistentes a tratamento antifúngico com fármacos azólicos.

De modo curioso, a transmissão pessoa a pessoa de cepas com reduzida sensibilidade ao fluconazol, durante tratamento médico, é praticamente impossível, de modo a apoiar a hipótese da seleção ambiental de cepas resistentes pós-exposição a compostos azóis.

Alguns estudos mostraram correlação entre cepas ambientais e clínicas, tendo os dois grupos de cepas o mesmo perfil de resistência a compostos azólicos.

Em particular, cepas de Aspergillus spp., fungo flamentoso amplamente distribuído em meio ambiente possuem resistência cruzada (a ambos: fármacos e fungicidas azólicos) e esse fato impacta o tratamento de pacientes com aspergilose bronco pulmonar alérgica ou outras formas de aspergilose.

Por estas razões a avaliação contínua da ocorrência e fungos em locais submetidos à aspersão de fungicidas, que apresentem fenótipos resistentes a compostos azólicos e, ainda, a busca da origem dessa resistência são procedimentos relevantes para a epidemiologia da resistência clínica nas micoses muco-cutâneas e invasivas.

Contribuir para conhecimento da microbiota de meio ambiente agrícola pode gerar subsídios para medidas preventivas de âmbito clínico e condutas terapêuticas.

 

Dra. Juliana P. F. Takahashi

Biomédica formada pela Universidade Metodista de São Paulo (2006), com mestrado em Ciências Biológicas (Microbiologia Aplicada) pela UNESP (2009). Doutora em Pesquisas Laboratoriais em Saúde Pública. Tem experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Micologia Aplicada. Trabalha no Núcleo de Patologia Molecular

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