Gestão da pandemia Coronavírus em um hospital: relato de experiência profissional

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Gestão da pandemia Coronavírus em um hospital: relato de experiência profissional

Gestão da pandemia Coronavírus em um hospital: relato de experiência profissional

As instituições de saúde estão lidando com um novo cenário de ações em saúde e segurança voltada aos diversos profissionais envolvidos nos cuidados à população. Estes, estão frente à pandemia causada pelo surto mundial da doença ocasionada pelo novo Coronavírus SARS-CoV-2, denominada como COVID-19.

O COVID-19, trata-se de ácido ribonucleico (RNA) vírus envelopados, habitualmente encontrados em humanos, outros mamíferos e aves, podendo ocasionar doenças respiratórias, entéricas, hepáticas e neurológicas.

Apesar de possuir letalidade em torno de 3%, trata-se de um vírus de disseminação maior que os outros da mesma espécie. A transmissão do vírus ocorre por contato próximo e sem proteção com secreções e gotículas de um indivíduo infectado.

 

Os sintomas podem variar, a maioria dos casos ocorre com sintomatologia leve, como a de um resfriado.

 

Os sintomas mais comuns são tosse, febre, coriza, dor de garganta e dispneia. Porém, casos mais graves evoluem para síndrome de desconforto respiratório e possuem necessidade de cuidados em unidades de terapia intensiva.

Trata-se de um grande desafio para a saúde pública mundial os impactos vivenciados frente a este vírus de fácil e rápida propagação na população, e que, ocasiona mudança abrupta nas rotinas das instituições de saúde, observando-se um panorama de intensificação de internações hospitalares em detrimento dos agravos respiratórios.

A cidade de Porto Alegre, registrou pela primeira vez a confirmação de contaminação pelo COVID-19 no dia oito de março deste ano, tendo um aumento de 22 novos casos confirmados em apenas uma semana.

Após este período, houve uma curva ascendente nos gráficos de registro da doença no estado do Rio Grande do Sul, bem como o aumento de hospitalizações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

Até a data deste estudo, houve o registro de 398 casos confirmados da doença na região, 10 deles evoluíram para o óbito hospitalar.

Levando em consideração que é indispensável manter em atividade o maior número de profissionais com vistas à minimização de impactos negativos desta situação de pandemia na sociedade, os cuidados com a prevenção de doenças e promoção da saúde entre os trabalhadores devem ser priorizados.

Assegurar o acesso aos Equipamentos de Proteção Individual (EPI) em quantidade suficiente e com eficácia, assim como a capacitação dos trabalhadores dos fluxos de atendimento e para o uso correto das barreiras à exposição, é essencial.

A ausência de vacina contra o novo Coronavírus reforça entre os profissionais da saúde a necessidade de aplicação de medidas de prevenção contra a infecção, como o uso dos óculos de proteção ou protetor facial, avental, luva de procedimento, máscara cirúrgica/N95 e higienização das mãos na prestação de assistência aos casos suspeitos ou confirmados de infecção pelo vírus.

Aliado a isso, a pandemia traz um desafio extra para a saúde mental de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Sob maior pressão, estes profissionais tendem a descuidar da própria saúde mental na incansável e constante luta contra o COVID-19, podendo propiciar o surgimento de transtornos relacionados ao estresse e ansiedade.

Assim, frente a esta pandemia, o objetivo deste estudo foi descrever a experiência da gestão para o atendimento de paciente confirmado ou com suspeita de Coronavírus em um hospital da região metropolitana de Porto Alegre.

Trata-se de um estudo do tipo relato de experiência sobre a gestão para o atendimento prestado a paciente confirmado ou com suspeita de COVID-19 em um hospital regional, de médio porte, situado na Região Sul, no estado do Rio Grande do Sul. A instituição hospitalar conta com um total de 193 leitos, sendo 60 destes, destinados ao setor de urgência e emergência.

O hospital oferece atendimento a pacientes particulares, de convênios médicos e do Sistema Único de Saúde (SUS). Este serviço de saúde não é referência para tratamento de COVID-19.

Os lócus de ação deste relato foram extraídos do cotidiano profissional das autoras deste artigo mediante a experiência profissional adquirida durante a pandemia de Coronavírus.

O relato foi baseado na experiência de enfermeiras com a gerência da assistência, de pessoas e materiais frente à pandemia de COVID19, bem como suas vivências associadas com o estresse e a pressão de lidar com o ofício, acrescido do risco de adoecer.

Quanto à questão temporal, o mesmo delimita-se na experiência profissional vivenciada nos meses de março a abril do ano de 2020.

Os dados aqui relatados traduzem a vivência presencial, os quais emergiram de relatos, observações, das fontes de materiais, estudos e discussões entre as profissionais na estrutura interna da instituição onde eram desenvolvidas as atividades de trabalho.

No momento, trabalham no atendimento de suspeitos e confirmados apenas os profissionais que não se enquadram como grupo de risco. O hospital definiu que os trabalhadores pertencentes ao grupo de risco, idosos e pessoas com doenças crônicas, fossem afastados ou realocados em outros setores da instituição.

Aqueles que apresentam sintomas respiratórios estão sendo afastados e testados para COVID-19. Com o início desta pandemia, uma das principais preocupações apresentadas pelos profissionais está relacionada a como deve ser realizado o atendimento ao paciente que apresenta suspeita ou confirmação da doença.

Este primeiro contato ainda gera dúvidas e apreensões, principalmente devido às mudanças recorrentes no fluxo de atendimento.

A referida instituição disponibilizou uma área exclusiva para o atendimento destes casos, prestando o atendimento separadamente dos demais pacientes que não apresentem síndromes gripais. Este local tem como finalidade a assistência isolada destes casos, e conta com uma equipe exclusiva para o atendimento.

Os protocolos institucionais ao atendimento nestes casos, encontram-se em constantes mudanças. Até a conclusão do presente artigo, o fluxo se dá através de um sistema de triagem rápida realizada por um enfermeiro onde é disponibilizado uma máscara cirúrgica ao paciente. Após isso, o mesmo é encaminhado de acordo com a gravidade dos sintomas, podendo ser atendido pelo médico responsável e liberado para isolamento e monitoramento domiciliar ou internado caso necessite de cuidados intensivos.

Dentro deste cenário, torna-se imprescindível que as organizações competentes estabeleçam fluxos padronizados para a assistência destes pacientes.

Dessa forma, a fim de determinar um atendimento uniformizado e organizado em todas as instituições de saúde, o Ministério da Saúde (MS) estabeleceu fluxogramas de atendimento em dois níveis, sendo eles o não hospitalar e o hospitalar, ambos subdivididos em atendimento em containers ou tendas e atendimentos dentro das instituições.

O MS ainda recomenda o fluxo rápido, priorizando o atendimento no momento da chegada e estabelecendo um nível de prioridade dos mesmos, tendo a disposição um médico, um enfermeiro e um técnico de enfermagem para a assistência, assim como a área exclusiva também é tida como uma recomendação absoluta e indispensável.

Utilização de equipamentos de proteção individual – Considerando o aumento do consumo de EPI durante a pandemia, a preocupação constante da equipe médica e de enfermagem é com a racionalização e a possibilidade da falta destes no hospital.

Existe controle de consumo de EPI na instituição, não sendo proibido o uso para nenhum profissional, porém, é cobrado pelos gestores o registro para monitoramento.

Além da rotina pesada, alguns profissionais mostram-se apreensivos por não possuírem total domínio quanto ao uso adequado destes. Apesar da aplicação de treinamentos e simulações ofertados pela instituição para lidar com os procedimentos a serem seguidos com a nova doença, muitos, ainda se mostram inseguros.

O referido hospital, cenário deste relato, propiciou discussões necessárias entre os trabalhadores da saúde, a respeito de medidas que melhorem as condições de trabalho durante este período, assim como promoveu capacitações para o reconhecimento dos perigos e aquisição de comportamento seguro.

O serviço de saúde possui o dever de fornecer capacitação para todos os profissionais de saúde para a prevenção da transmissão de agentes infecciosos. Todos os profissionais de saúde devem ser treinados para o uso correto e seguro dos EPI.

É essencial assegurar a proteção dos profissionais de saúde contra o vírus a fim de garantir que estes não atuem como vetores de transmissão, além de evitar seu adoecimento, que pode preservar a manutenção do atendimento à população necessitada.

É válido ressaltar, porém, que a existência de falhas na proteção dos trabalhadores têm sido a realidade observada em diversos países.

Desafios e potencialidades vivenciadas – O Brasil e o mundo se deparam com grandes desafios impostos por esta pandemia, desafios estes que vêm sendo anunciados pelas mídias sociais desde seu início.

Com isso nos foi oportunizado o tempo necessário para a devida preparação das estruturas físicas da instituição, bem como proporcionar treinamentos aos profissionais que iriam lidar diretamente com estes pacientes.

A adaptação dos profissionais assistenciais frente às drásticas mudanças em seu âmbito de trabalho pode ser vista como um dos principais desafios apresentados frente a esta pandemia.

Ações como, atendimento ao paciente suspeito ou confirmado, carga horária de trabalho, paramentação, uso correto dos EPI e aumento da complexidade assistencial, vêm se mostrando como grandes preocupações.

Como forma de instruir estas equipes são realizados treinamentos e simulações sobre diversos assuntos, tais como o uso de EPI, intubação e cricotireoidostomia, transporte adequado e higiene das mãos. Estes são realizados por enfermeiros e médicos em todos os turnos de trabalho.

A adesão da equipe a estas orientações cresce a cada dia, oportunizando colaboradores orientados e treinados quanto a assistência adequada, garantindo também a segurança profissional.

A contratação emergencial de profissionais intensivistas foi adotada para suprir a necessidade de funcionários frente ao crescente fluxo de atendimento diário.

Esta medida tornou-se necessária nesta instituição devido a construção de um Hospital de Campanha. Neste complexo é realizado triagem, atendimentos ambulatoriais e internações à pacientes suspeitos e confirmados.

O Hospital de Campanha conta com três enfermeiros, dois médicos e um técnico a cada dois pacientes atendidos no local por turno. Foram disponibilizadas capacidade de 10 leitos intensivos, consultórios para atendimento ambulatorial, sala de medicação e observação.

A equipe que promove à assistência, deve receber o treinamento adequado para aspectos específicos, tais como isolamento, utilização de EPI e exames padronizados. Bem como para aspectos emocionais e comportamentais que envolvam este cenário.

Hospitais construídos por instituições governamentais surgem em todo o mundo, no Brasil não seria diferente. No cenário em que estamos atualmente, com a curva de contaminação não tendo atingido seu auge, ainda há leitos disponíveis para a população.

 

A falta de leitos intensivos assola grande parte do globo terrestre, nestes casos está havendo remanejo de insumos indispensáveis, tais como ventiladores mecânicos e máscaras para localidades mais afetadas.

 

 Saúde mental de profissionais da saúde na pandemia – O medo e apreensão entre os enfermeiros da referida instituição é constante e se refere principalmente ao risco de expor-se ao vírus e a preocupação de contágio de suas famílias.

Temos ainda que saber lidar com a possibilidade de um colapso no sistema de saúde nacional, tendo em vista a continuidade de outras doenças além da COVID-19, além das preocupações econômicas e trabalhistas relacionadas às recomendações de distanciamento social.

Aliado a isso temos a insegurança vivenciada pelas constantes mudanças de fluxos de atendimento e protocolos institucionais, o que dificulta a rotina de trabalho. Travamos uma batalha contra um agente invisível que nos ameaça e nos mantém refém.

Essa situação extrema trazida pelo Coronavírus causa muita pressão psicológica, o que acaba ocasionando ou agravando problemas mentais para os profissionais que estão na linha de frente deste hospital.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), recentemente, publicou um guia para orientar cuidados a saúde mental de diversos grupos, incluindo profissionais de saúde. Para os trabalhadores da saúde, o estresse e a pressão de lidar com o seu trabalho, acrescido do risco de adoecer, provocam severos problemas de saúde mental, aumentando o turnover e a Síndrome de Burnout.

Tendo em vista que o vírus foi recentemente descoberto e que ainda são poucos os estudos sobre o tema, os protocolos e recomendações sofrem mudanças constantes. Enfatiza-se diante disso, a relevância da manutenção de contínua atualização técnico científica. É primordial a capacitação dos funcionários para a utilização adequada das barreiras à exposição, assim como os ajustes na estrutura dos fluxos operacionais dos serviços.

Assegurar aos profissionais de saúde o acesso aos EPI em quantidade suficiente e com qualidade reconhecida é essencial, propicia que estes não atuem como vetores de transmissão, além de evitar seu adoecimento.

Alerta-se diante desta pandemia, para a saúde mental dos profissionais de saúde, que passam a correr risco aumentado para desenvolvimento de síndrome de Burnout, já que possuem medo, insegurança e apreensão com o avanço da doença. Estes, não temem apenas o próprio contágio, mas também a transmissão para suas famílias.

 

*Publicado em J. nurs. health. 2020;

 

 

Rodrigues, Nicole Hertzog1; Silva, Luana Gabriela Alves da2*

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