Ecoeficiência e economia com a redução dos resíduos infectantes do Hospital Auxiliar de Suzano

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Ecoeficiência e economia

Ecoeficiência e economia com a redução dos resíduos infectantes do Hospital Auxiliar de Suzano

Introdução

A ecoeficiência e economia ainda não foi devidamente difundida no setor saúde. Trata-se de um sistema que atinge alta produtividade, com bons níveis de qualidade, dispondo de menores recursos financeiros, com um decrescente volume de geração de resíduos. A busca de uma solução adequada para a destinação correta dos Resíduos de Serviços de Saúde (RSS) constitui uma medida extremamente importante para o dia a dia de uma unidade hospitalar, contribuindo para manter a saúde pública, recuperar o ambiente e beneficiar a qualidade de vida dentro e fora dos hospitais1.

O alcance do manejo adequado em uma instituição de saúde ultrapassa os seus limites, beneficiando a comunidade local e o entorno. Em vários estabelecimentos de saúde, a baixa eficiência no gerenciamento dos RSS, em especial na etapa de segregação, é decorrente do acondicionamento dos resíduos comuns juntamente com os biológico-infectantes do Grupo A2.

Além disso, a maioria dos Estabelecimentos Assistenciais de Saúde (EAS) apresenta deficiência quanto ao armazenamento interno e externo dos resíduos, principalmente em relação às condições físicas das áreas utilizadas para essa finalidade, onde de 10% a 25% dos rejeitos gerados são considerados perigosos.

A periculosidade de um resíduo é a característica que, em função de suas propriedades físicas, químicas ou infectocontagiosas, pode ocasionar quando o resíduo é manuseado ou destinado de forma inadequada riscos à saúde pública, provocando ou acentuando, de forma significativa, incidência mortalidade ou incidência de doenças e/ou riscos ao ambiente. A grande diversidade de materiais nos RSS requer cuidados, desde o manejo nas unidades, evitando-se a contaminação, até a sua correta disposição final, diminuindo, assim, os riscos à saúde pública e ao meio ambiente. A adequada e correta classificação desses resíduos permite um manuseio eficiente, econômico e seguro, além de facilitar a futura segregação deles, reduzindo riscos sanitários e o gasto com o seu manejo3.

A segregação parece ser um dos pontos fundamentais enquanto a periculosidade de alguns RSS é discutida. Uma parcela dos resíduos de serviços de saúde é descrita nas regulamentações como potencialmente infectante, contudo, se essa parcela for misturada aos resíduos comuns, todos os resíduos misturados serão tratados como potencialmente infectantes, exigindo procedimentos específicos durante as etapas de acondicionamento, armazenamento, coleta, transporte e disposição final, demandando, assim, altos custos para o gerenciamento adequado4. Embora não necessariamente em percentuais semelhantes, vários componentes dos RSS podem ser encontrados nos resíduos domiciliares.

A composição gravimétrica dos resíduos de serviços de saúde demonstra uma semelhança com os resíduos sólidos domésticos. Componentes como papel, papelão, plásticos e vidros aparecem em percentuais elevados em diversos estudos realizados. Já a ecoeficiência e economia preconiza a valorização do fator humano e destaca a importância em formar profissionais com uma visão mais ampla sobre as questões ambientais da atualidade, despertando seu interesse e estimulando sua participação nos programas de qualidade ambiental das unidades de saúde. Além das questões ambientais, o conhecimento sobre os custos associados ao uso de materiais e insumos e ao seu tratamento após uso pode despertar uma maior conscientização,

diminuindo a manipulação inadequada ou descontrolada. A expectativa é que profissionais de todos os níveis, conscientes de sua importância, sejam mais participativos e se tornem peças fundamentais no sucesso dos programas relacionados às demandas legais e de qualidade que estejam ocorrendo em suas empresas5.

A gestão brasileira dos RSS teve como marco a Resolução No. 5 do CONAMA6, sendo atribuídas responsabilidades específicas aos vários segmentos envolvidos, como: geradores, autoridades sanitárias e ambientais. A Resolução No. 283 do CONAMA7 complementa os procedimentos do gerenciamento, estabelecendo as diretrizes para o tratamento e disposição dos RSS. A RDC No. 306 da ANVISA8 e, recentemente, a Lei No. 12.305, de agosto de 2010, instituem a Política Nacional de Resíduos Sólidos9.

Desde 1993, havia uma preocupação com a gestão clássica e a gestão avançada dos RSS, ocasião em que foi elaborado um comparativo em diversos países com relação à produção de resíduos infectantes. A Bélgica, o Reino Unido e a França produzem de 1,5 a 2,0 kg/leito/ dia, e o Brasil, 1,2 a 3,8 kg/leito/dia. Utilizando uma gestão avançada, a Alemanha, a Holanda, o Canadá, a Áustria e a Suécia produzem de 0,005 a 0,4 kg/leito/dia10.

Metodologia

O presente trabalho foi desenvolvido no Hospital Auxiliar de Suzano (HAS), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Trata-se de um hospital de retaguarda, de médio porte, com 120 leitos, localizado no Município de Suzano, destinado ao acompanhamento em internações com períodos prolongados de permanência originadas no HCFMUSP.

Foram analisadas as planilhas das pesagens dos RSS produzidos no HAS, referentes ao período de janeiro de 2009 a maio de 2010. Em seguida, foram analisados os métodos e as técnicas utilizadas nas tarefas relacionadas à produção, acondicionamento, transporte, armazenamento e destino final dos resíduos comuns e considerados potencialmente infectantes, provenientes das alas de internação, das salas de apoio diagnóstico e terapêutico, bem como das salas de procedimentos.

Os procedimentos técnicos e a metodologia desenvolvida tiveram por base os fundamentos da pesquisa-ação.

Aplicando o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS) do HAS, foram disponibilizadas lixeiras com pedal, devidamente identificadas, carrinhos fechados (para transporte interno para o translado dos resíduos dos pontos de geração até o armazenamento externo) e Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para todos os setores do hospital.

Paralelamente, em um trabalho conjunto envolvendo a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), o Serviço de Segurança do Trabalho (SST) e o Serviço de Higiene e Limpeza Hospitalar (SHLH), todos os setores do hospital passaram a ser acompanhados com referência às técnicas de segregação dos RSS e sua correta destinação a partir de cada unidade geradora.

Desde junho de 2010, essa equipe de trabalho passou a percorrer todas as áreas de atendimento, instruindo e treinando os funcionários do hospital, inclusive formando multiplicadores para a difusão das ações voltadas à ecoeficiência e economia.

Essas ações teórico-práticas foram desenvolvidas com demonstração (no local) das técnicas de segregação, identificando os resíduos que não apresentam riscos biológicos à saúde ou ao meio ambiente, podendo ser equiparados aos resíduos domiciliares, tais como: papel de uso sanitário, fraldas, absorventes higiênicos, restos alimentares de pacientes, material utilizado em antissepsia e outros resíduos que compõem o Grupo D, os quais até maio de 2010 eram descartados inadequadamente em sacos de lixo brancos.

Os resíduos produzidos no período de 2009 a 2010 foram analisados antes e após a nova metodologia aplicada.

Resultados e discussão

A Tabela 1 mostra todas as pesagens dos resíduos produzidos pelo Hospital Auxiliar de Suzano nos anos de 2009 e 2010, com as respectivas taxas de resíduos infectantes que foram incinerados.

Em relação aos pesos totais dos resíduos produzidos pelo HAS, houve um aumento de 5,14% de 2009 para 2010, atribuído a um número maior de internações nesse período.

O Gráfico 1 demonstra as quantidades (kg) dos resíduos orgânicos e infectantes no ano de 2009. Notase que o peso dos resíduos infectantes destinados a incineração sempre se manteve maior do que o peso dos resíduos orgânicos, exceto no mês de julho do mesmo ano.

 

tabela 1. Quantidades mensais de resíduos produzidos pelo HAS e as respectivas taxas de resíduos infectantes (TRI) nos anos de 2009 e 2010

 

 

mês/ano

2009 2010
total (kg) orgânico (kg) infectante (kg) TRI (%) total (kg) orgânico (kg) infectante (kg) TRI (%)
jan. 10793 5243 5550 51,42 11662 4727 6935 59,47
fev. 10075 4334 5741 56,98 9671 4064 5607 57,98
mar. 12115 5413 6702 55,32 12868 5087 7781 60,47
abr. 11202 5401 5801 51,79 12396 5451 6945 56,03
mai. 10787 4806 5981 55,45 12379 5212 7167 57,90
jun. 11051 4910 6141 55,57 11939 4984 6955 58,25
jul. 9361 5056 4305 45,99 9233 5158 4075 44,14
ago. 11304 5269 6035 53,39 15786 12173 3613 22,89
set. 11331 4620 6711 59,23 14925 11803 3122 20,92
out. 11860 5489 6371 53,72 12255 9552 2703 22,06
nov. 11327 4624 6703 59,18 13630 11070 2560 18,78
dez. 13263 5601 7662 57,77 12294 9701 2593 21,09

 

O Gráfico 2 apresenta nitidamente uma inversão dos pesos dos resíduos infectantes, que até antes das medidas de gerenciamento (junho/2010) eram maiores do que os pesos dos resíduos orgânicos. No mês de julho, os resultados começaram a apresentar efeitos positivos, com a queda real dos pesos dos resíduos infectantes, atingindo, no final do mesmo ano, valores entre 3000 a 2500 kg.

O Gráfico 3 apresenta a comparação das taxas dos resíduos incinerados nos anos de 2009 e 2010. Nota-se que, com ações de gerenciamento e de coleta seletiva dos resíduos produzidos no HAS, a partir de junho de 2010, houve uma queda substancial nas taxas, chegando ao patamar de 20%, considerado muito satisfatório.

As Taxas de Incineração dos Resíduos Infectantes (TIRI) foram calculadas a partir da seguinte fórmula:

TIRI = Total de lixo infectante em kg por mês x 100 / Total de lixo produzido em kg por mês

Esses cálculos foram executados de acordo com o Manual de Indicadores de Desempenho do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo11.

Como consequência da segregação adequada dos resíduos infectantes e comuns, houve redução expressiva do volume de resíduo infectante no período de junho a dezembro de 2010, com tendência estabilizada.

Conclusão – Ecoeficiência e economia

Vários problemas de ordem técnica, de segurança, econômica e ambiental podem ocorrer quando o PGRSS de um EAS não é aplicado com perícia e com o total envolvimento dos profissionais da saúde.

Quando ocorre a mistura dos resíduos perigosos aos comuns, todos se tornam potencialmente perigosos e, por consequência, serão destinados de forma inadequada. Essa e outras práticas prejudiciais evidenciam a escassez de profissionais capacitados para gerenciar corretamente o manejo dos RSS.

No Hospital Auxiliar de Suzano, o custo-benefício foi altamente positivo, tanto em relação ao caráter construtivo relacionado ao impacto ambiental, quanto à diminuição da exposição ocupacional aos resíduos infectantes.

De acordo com os cálculos das planilhas de custos (contrato de coleta e tratamento de RSS), desde junho de 2010 (momento do início da prática dessa metodologia de segregação dos resíduos do hospital), houve uma economia de aproximadamente 40% em relação aos meses anteriores, com boas perspectivas, ainda mais econômicas, contribuindo para a otimização dos recursos orçamentários do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

gráfico 1. Comparação das quantidades de resíduos produzidos pelo HAS no ano de 2009

gráfico 2. Comparação das quantidades de resíduos produzidos pelo HAS no ano de 2010

gráfico 3. Comparação das taxas de resíduos infectantes incinarados do Hospital Auxiliar de Suzano   do HCFMUSP, no período de 2009 a 2010

Agradecimentos

Agradecemos a participação de Haroldo de Souza Ribeiro, Presidente da Comissão de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde, do Hospital Auxiliar de Suzano, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

referências

  1. Moura A, Viriato A. Gestão Hospitalar: da organização ao Serviço de Apoio Diagnóstico e Terapêutico. Barueri (SP): Manole;
  2. Silva CE, Hoppe AE. Diagnósticos dos resíduos de serviços de saúde no interior do Rio Grande do Sul. Eng Sanit Ambient. 2005;10(2):146-51.
  3. Nataraj G, Baveja S, Kuyari S, Poojary A, Mehta P, Kshirsagar N, Gogtay Report: Medical students for monitoring biomedical waste segregation practices why and how? Experience from a medical college. Waste Manag Res. 2008 Jun;26:288-90.
  4. Garcia LP, Ramos BGZ. Gerenciamento dos resíduos de saúde: uma questão de biossegurança. Cad Saúde Pública. 2004;20:74452.
  5. Sisinno CLS, Moreira Ecoeficiência: um instrumento para a redução da geração de resíduos e desperdícios em estabelecimentos de saúde. Cad Saúde Pública. 2005;21(6):1893-900.
  6. Resolução CONAMA No. 05/1993. Define as normas mínimas para tratamento de resíduos sólidos oriundos de serviços de saúde, portos e aeroportos e terminais rodoviários. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, 31 ago., Seção 1. Brasília; 2001.
  7. Resolução CONAMA No. 283/2001. Dispõe sobre o tratamento e a destinação final dos resíduos dos serviços de saúde. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, 01 out., Seção 1. Brasília; 2001.
  8. Resolução ANVISA RDC No. 306/2004. Dispõe sobre o Regulamento Técnico para o gerenciamento de resíduos dos serviços de saúde. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, 10 dez., Seção 1. Brasília; 2004.
  9. Lei No. 12.305 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, 3 ago., Seção 1. Brasília; 2010.
  10. Joffre AF, Die IM, Maruet Gestion avanzada de resíduos biosanitários. Rev Hosp. 1993;6(97):13-8.
  11. Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – Manual de Indicadores de Desempenho; 2005.

 

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