Você já ouviu falar em neutrófilos “leves” e neutrófilos “pesados”?

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Você já ouviu falar em neutrófilos “leves” e neutrófilos “pesados”?

Você já ouviu falar em neutrófilos “leves” e neutrófilos “pesados”?

Acreditamos que, ao ler o título do texto você deve ter se perguntando: Essa distinção existe, de fato? E a resposta é SIM! Porém, para adentrarmos em um universo mais científico e acadêmico vamos utilizar outra nomenclatura, neutrófilos de baixa densidade, em inglês “low density neutrophils” (LDN’s) e neutrófilos de densidade normal, em inglês “normal density neutrophils” (NDN’s). Quando falamos nestes termos, não estamos falando de células diferentes daquelas que já conhecemos, mas sim de subpopulações de neutrófilos com fenótipos distintos. Mas, calma! Vamos entender todo contexto aos poucos…

            Por muito tempo se pensou em um conceito de neutrófilos como: “Uma população de células homogênea com um papel de protagonismo em nosso sistema imunológico combatendo diversos tipos de antígenos”. De fato, estas células têm essa função de defesa no nosso organismo, entretanto, estudos recentes mostraram que essa não é a única função deste tipo celular, assim como não estamos tratando de uma população homogênea de células. Os neutrófilos apresentam uma certa variedade em seu fenótipo, o que os possibilita que desempenhem funções distintas a depender da situação/patologia nos quais estão envolvidos.

            Para exemplificar, trouxemos alguns trabalhos que corroboram este novo conceito. Em 1986, Hacbarth e Kajdacsy-Balla foram os primeiros a identificar neutrófilos de “alta flutuabilidade”, o que depois passaríamos a chamar de neutrófilos de baixa densidade. Essa subpopulação de neutrófilos era assim categorizada pois se encontravam na faixa de baixa densidade na técnica de separação de células por gradiente de densidade. Trabalhos posteriores como os de Carmona-Rivera e Kaplan, 2013; e Denny et al. 2015 ratificaram a presença destes neutrófilos e começaram a associar a presença dos mesmos a maior atividade de algumas doenças inflamatórias, como Lupus e Artrite Reumatoide, sugerindo que, quanto maior a quantidade de LDN’s mais intenso seria o quadro inflamatório do paciente, caracterizando esta subpopulação como neutrófilos com fenótipo mais voltado à promoção da inflamação.

            Outra função dos neutrófilos que vem sendo bastante discutida é o seu papel em alguns processos neoplásicos, podendo, estas células, se comportar de forma pró-tumor ou antitumor. Trabalhos como o de Shaul, et al. 2019; e HSU et al. 2020 sugerem que neutrófilos de baixa densidade tenham um comportamento pró-tumor enquanto neutrófilos de densidade normal desempenhem uma atividade antitumoral.

            Mas você deve estar se perguntando, esses neutrófilos já nascem com essas características bem definidas e assim permanecem por toda sua “vida”? A resposta ainda não é um consenso, mas, acredita-se que LDN’s e NDN’s sejam apenas um estado de polarização, isso significa que o nosso organismo produz certos “mensageiros” (citocinas) que fazem com que o neutrófilo mude de um fenótipo para o outro, assumindo, desta forma, funções distintas a depender da situação/patologia envolvida.

            O objetivo do nosso texto não é de esgotar as informações sobre o tema, mas apenas atualizar alguns conceitos sobre neutrófilos e suas funções em nosso organismo, assim como despertar o leitor para um universo de possibilidades de novos estudos envolvendo este tema.

            Esperamos que tenham gostado deste conteúdo! Aguardamos vocês em uma próxima leitura!

 

Bruno Leal é especialista em Hematologia, mestrando pela UNIFESP e docente da Pós-graduação em Análises Clínicas do IPESSP

Referências:

Carmona-Rivera C, Kaplan MJ. Low-density granulocytes: a distinct class of neutrophils in systemic autoimmunity. Seminars in Immunopathology. 2013Apr;35(4):455–63.

Denny MF, Yalavarthi S, Zhao W, Thacker SG, Anderson M, Sandy AR, et al. A Distinct Subset of Proinflammatory Neutrophils Isolated from Patients with Systemic Lupus Erythematosus Induces Vascular Damage and Synthesizes Type I IFNs. The Journal of Immunology. 2010;184(6):3284–97.

Hsu BE, Roy J, Mouhanna J, Rayes RF, Ramsay L, Tabariès S, et al. C3a elicits unique migratory responses in immature low-density neutrophils. Oncogene. 2020Apr;39(12):2612–23.

Jablonska J, Granot Z. Neutrophil, quo vadis? Journal of Leukocyte Biology. 2017;102(3):685–8.

Shaul ME, Eyal O, Guglietta S, Aloni P, Zlotnik A, Forkosh E, et al. Circulating neutrophil subsets in advanced lung cancer patients exhibit unique immune signature and relate to prognosis. The FASEB Journal. 2020;34(3):4204–18.

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