Envelhecimento populacional: novos desafios e oportunidades

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Envelhecimento populacional: novos desafios e oportunidades

O século XXI é marcado por desafios, imprevisibilidades e incertezas em todas as esferas da vida humana e impactam a área da saúde de forma significativa. Refiro-me do aparecimento de novas doenças, bactérias resistentes a antibióticos, mudanças climáticas, crescimento dos cânceres, dentre outras. Mas o fenômeno do envelhecimento populacional, crescimento vertigino de indivíduos com 60 anos de idade ou mais, trará muitas oportunidades para diversas áreas da saúde.

O envelhecimento populacional

O crescimento do número de indivíduos no mundo com mais de 60 anos cresceu 7,3 milhões, entre 1980 e 2000. No Brasil, a previsão da OMS é que o Brasil ocupará até 2025, o sexto país do mundo em número de idosos.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística reafirmam o acelerado envelhecimento da população brasileira nas últimas quatro décadas. Em 1970, correspondia à 5% da população total. Em 1980, 6%; 1990 para 7%; 2000, 8%, com previsão de 15%3 para 2025.

Com relação à expectativa de vida, no final dos anos de 1980, era de 66 anos, alcançando 68.6 anos no ano 2000 e ultrapassará os 72 anos em 2020.

Nessa direção, a ONU prevê que o Brasil em 2025, assumirá a posição de sexto país com o maior número de idosos do mundo.

O envelhecimento populacional ocorre quando há redução das taxas de fertilidade e de mortalidade, favorecendo o acréscimo da longevidade.

O fenômeno vem ganhando destaque nas agendas dos governos, na atenção dos profissionais de áreas como a Medicina, Enfermagem, Educação, Psicologia, Serviço Social.

A questão do envelhecimento envolve aspectos cronológicos, biológicos, sociais, culturais, econômicos e psicológicos na perspectiva da melhoria e manutenção da saúde e da qualidade de vida do idoso.

Diante disso, torna-se imprescindível a implementação de políticas públicas que priorizem a prevenção e promoção da saúde, extrapolando o foco nas doenças.

Além de respostas concretas e abrangentes das políticas públicas, destacamos a oportunidade da formação de profissionais na geriatria e gerontologia, para atuação em equipes multiprofissionais, humanização, ética no atendimento e tratamento dos idosos.

Enquanto as doenças infectocontagiosas tiveram uma significativa diminuição, nas últimas décadas, as cardiovasculares que já foram responsáveis por 12% das mortes, aumentaram para 40% da mortalidade.

Essa mudança do perfil da morbimortalidade implica nas despesas médicas e hospitalares, com grande impacto na oferta dos serviços de saúde, novos medicamentos e na formação dos profissionais da área da saúde.

Esse novo cenário permeado pelo envelhecimento demográfico traz um novos paradigmas e oportunidades para os profissionais da saúde, desde o diagnóstico clínico laboratorial, prevenção e tratamento. Mas para isso, a formação dos profissionais se tornar fundamental.

Identificar a população de risco

Portanto, é “o grau de capacidade funcional que permitirá identificar a população de risco para hospitalização, institucionalização e morte” (idem).

Assim, o indicador mais importante de saúde passa da ausência ou presença da doença, para o grau de capacidade funcional do indivíduo e é o grau da perda dessa capacidade que indicará se o envelhecimento será saudável ou não, independentemente da presença de doenças crônicas (RAMOS, 2009).

Dessa forma, enfatiza-se a manutenção da capacidade funcional, a prevenção de incapacidades e o grau de capacidade do indivíduo de desempenhar de forma independente e autônoma as atividades básicas da vida diária e do seu dia-a-dia, levando-se em consideração os seus aspectos físicos, psíquicos, cognitivos e sociais.

Destarte, as principais demandas da saúde pública na atualidade referem-se: a promoção da saúde e prevenção primária; implementação do tratamento de saúde adequado; e reabilitação das funções comprometidas (RAMOS, 2009, p.41).

Para tanto, é preciso que a promoção da saúde seja centrada na educação em saúde, visando a adoção de hábitos saudáveis e a promoção da compreensão sobre o processo de envelhecimento.

No âmbito dos atendimentos e dos tratamentos, é preciso que os profissionais sejam capacitados em geriatria e gerontologia para que possam efetuar diagnósticos precoces com vistas a preservar a capacidade funcional dos pacientes.

E na esfera da reabilitação, o foco central do trabalho deve ser a promoção da independência e autonomia do paciente, mesmo em situações de constatação de limitações ou incapacidades.

Certamente essas ações preventivas, assistenciais e de reabilitação não se constituem como tarefa fácil, mas é fundamental transcender a visão reducionista de simples diagnóstico e tratamento de doenças recorrentes na área da saúde pública.

Estamos prontos para enfrentar os desafios referentes ao envelhecimento da população no Brasil?

São inúmeros os desafios ocasionados pelo processo de envelhecimento populacional no país e enfrentá-los pressupõe desenvolver um planejamento que incida em ajustes e alterações das políticas públicas em geral, e em específico as da saúde pública.

Nesse sentido, a área da saúde deve ser considerada como estratégica, pois a transição demográfica tem um impacto direto na transição epidemiológica, com consequências na alteração do perfil de doenças da população.

Há quatro décadas atrás as doenças, no Brasil, eram caracterizadas como infectocontagiosas e o paradigma de saúde pública estava baseado no dualismo cura/morte.

Entretanto, o perfil populacional alterou significativamente o perfil das doenças, configurando-se como doenças crônicas, como cardiopatias, câncer, doenças metabólicas e depressão, observadas como as principais causas de morte e invalidez.

A tendência é o aumento sucessivo nas próximas décadas dessas doenças que exigem a mudança de paradigma da saúde pública vigente, pois o envelhecimento deve ter como meta a promoção da autonomia e independência e capacidade funcional.

Por isso, o paradigma da funcionalidade é apontado como um dos caminhos que podem conduzir à efetivação da integralidade no cuidado, passando da lógica de atendimento baseado em queixa-conduta para a de manutenção da capacidade funcional e prevenção de incapacidades (RAMOS, 2009).

Dessa forma, a preservação e manutenção da funcionalidade deveria nortear o modelo de saúde pública, tendo como principal objetivo o cuidado integral e a atuação preventiva, garantindo uma visão holística dos indivíduos e consequentemente, sua melhor qualidade de vida.

No entanto, observa-se que “um dos problemas da maioria dos modelos assistenciais vigentes decorre do foco exclusivo na doença” (VERAS e OLIVEIRA, 2018, p. 1933).

Esse modelo vigente de prestação de serviços fragmenta a atenção ao idoso “com multiplicação de consultas de especialistas, informação não compartilhada, inúmeros fármacos, exames clínicos e imagens, entre outros procedimentos” (idem).

A fragmentação das ações acaba gerando uma sobrecarga no sistema que sofre um enorme “impacto financeiro em todos os níveis e não gera benefícios significativos para a saúde, nem para a qualidade de vida” (VERAS e OLIVEIRA, 2018, p. 1933).

Escassez de recursos

Essas análises tornam a situação futura do sistema de saúde ainda mais grave, em função da escassez de recursos frente a demanda crescente de procedimentos diagnósticos, terapêuticos, utilização de serviços de maior complexidade, com alto nível tecnológico e de unidades de terapia intensiva, de hemodinâmica e métodos dialíticos, necessários ao tratamento de doenças crônicas não transmissíveis, com ênfase para as cardiovasculares e as neurodegenerativas, bem como os serviços de reabilitação física e mental.

Outro desafio posto, refere-se à necessidade da formação de profissionais com conhecimentos em geriatria e gerontologia para atuarem em equipes multiprofissionais, composta por médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e assistentes sociais.

No entanto, Medeiros (2017, p. 292) adverte que:

Ainda que o SUS deva ordenar a formação da força de trabalho na área da saúde, paradoxalmente, contudo, na formulação de políticas, uma das questões mais negligenciadas é justamente a da formação. Destarte, em não raros contextos, a formação profissional tem operado no sentido da manutenção de paradigmas tradicionais biologicistas, medicalizantes e procedimento-centradas, que limitam a ideia da integralidade, e não na superação destes.

Além da formação de profissionais da área da saúde, outro enorme desafio para a política de saúde frente as populações que envelhecem, é conciliar e alcançar um equilíbrio entre: o autocuidado apoiado; o apoio informal realizado por familiares e amigos; e cuidado formal realizado por profissionais da saúde e da assistência social.

É preciso que haja integração dos serviços de saúde, incluindo as famílias, com ações de orientação e apoio familiar para a execução das funções de cuidados dos idosos sob sua responsabilidade.

Em síntese, o Brasil terá que realizar esforços redobrados na efetivação das mudanças estruturais necessárias ao atendimento das demandas da população que envelhece de forma acelerada, sendo que o enfrentamento desses desafios é uma tarefa urgente.

Considerações finais

A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2005) destaca que o envelhecimento da população consiste em uma das maiores conquistas humanas, pois é a primeira vez na história, que a maior parte dos sujeitos podem ter expectativa de vida acima dos 60 anos de idade.

Contraditoriamente, esse processo representa um dos grandes desafios contemporâneos, principalmente para a área da saúde, seus sistemas, orçamentos e profissionais.

Assim, há a exigência de compreensão do fenômeno do envelhecimento em toda a sua complexidade por parte dos responsáveis pela implementação e gestão das políticas públicas de saúde, pelos gestores das instituições e pelos profissionais da área.

Essa compreensão é urgente, pois possibilitará a identificação e adoção de novos paradigmas de atenção à saúde do idoso, voltados à superação dos modelos assistenciais vigentes centrados na doença.

Entretanto, a implementação de políticas públicas voltadas ao enfrentamento dos efeitos deste fenômeno, tem se apresentado de forma problemática, principalmente pela constatação da crise pública nos setores da saúde e previdência (GOLDMAN, 2000).

Assim, a realidade brasileira não se encontra preparada para absorver minimamente esta demanda posta pelo envelhecimento populacional.

Conclui-se, que o envelhecimento saudável e a ampliação das oportunidades que emergem do aumento da longevidade está condicionado a um fator central: saúde.

 

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